Artigo

Consumo tecnológico x Impacto ambiental – Pra onde vai o lixo?

Lixo Eletronico
Por Edna Barbosa – Especialista em Gestão de Negócios Sustentáveis pela UFF.

Em plena expansão tecnológica é importante que façamos uma reflexão sobre qual o impacto desse avanço todo, tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico e social.

O Desenvolvimento tecnológico é sustentável? Qual a vida útil de um dispositivo eletroeletrônico? E quando o substituímos pra onde vai o antigo?

Desde o surgimento do ENIAC (Electrical Numerical Integrator and Computer) em 1946, o primeiro computador, criado pelos cientistas americanos John Eckert e John Mauchly, que pesava cerca de 30 toneladas, nós vimos o desenvolvimento tecnológico avançar tão rápido quanto o fenômeno da globalização. E hoje vivemos em um mundo totalmente conectado, estamos todos juntos nas redes sociais do mundo virtual.  E os computadores são cada vez mais leves e menores, cabem na palma da mão, são “smarties”. Vimos também transmissões de dados evoluírem do analógico ao digital com a mesma rapidez.

O Brasil tem hoje cerca de dois dispositivos digitais por habitante, incluindo smartphones, computadores, notebooks e tablets. Até o final de 2019, o País terá 420 milhões de aparelhos digitais ativos. É o que demonstra a 30ª Pesquisa Anual de Administração e Uso de Tecnologia da Informação nas Empresas, realizada pela Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), referente ao ano de 2018.

Na indústria de eletroeletrônicos os recursos como energia, metais, plásticos, vidros e etc. são matérias primas oriunda da extração e exploração  dos recursos naturais.

A pesquisadora americana Annie Leonard explica em seu documentário The Story of Stuff (a historia das coisas)  que os impactos causados pela exploração dos recursos naturais para produção de bens de consumo nas três últimas décadas, já ultrapassaram 33% dos recursos naturais do planeta e também revelou que 80% das florestas naturais do mundo já desapareceram. Ela ressaltou que provavelmente os custos de produção de um eletroeletrônico como um pequeno rádio de U$ 4,99 (quatro dólares e noventa e nove centavos), não são nem de longe considerados, tendo em vista todo o percurso e custo ambiental/econômico/social da matéria prima original, até a chegada do rádio à prateleira da loja. Ela também revela que nos Estados Unidos, 99% das coisas em menos de seis meses viram lixo.

Segundo Harari, Y.N,  o impacto que nós humanos já causamos ao ecossistema é comparável ao da idade do gelo e dos movimentos das placas tectônicas juntos, e que possivelmente em 100 anos, impactaremos tanto quanto o asteroide que exterminou os dinossauros 65 milhões de anos atrás.

Nós, no entanto, raramente nos preocupamos com isso, quando decidimos comprar “aquele” modelo novo, mais avançado e cheio de efeitos tecnológicos. O problema é que também não temos muita escolha, os dispositivos que usamos, tem vida útil curta, de repente “travam” , não tem como consertar,  alguns nem são mais compatíveis com as atualizações do próprio sistema e  é impossível passar adiante, vender ou doar para outra pessoa usar, porque simplesmente não funcionam!

E assim, temos  que comprar um novo e jogar o antigo no Lixo, porque ficou obsoleto. Aliás, podemos dizer que ficar obsoleto também faz parte desse desenvolvimento tecnológico e isso se chama Obsolescência Programada (ou planejada) que é a redução proposital da durabilidade de um produto, estimulando o aumento do consumo, que em tese contribui para o crescimento da economia.

Surgiu no final do século XIX quando os fabricantes de lâmpadas se uniram para diminuir a durabilidade de seu produto de 2500 horas para cerca de 1000 horas. E ressurgiu fortemente após a segunda guerra mundial como uma estratégia econômica dos países capitalistas, visando o equilíbrio da economia e mercado de trabalho. Desta vez, um pouco mais arrojada e também focada em despertar o “desejo e a necessidade” do consumidor, e assim surgiram as estratégias de marketing!

O economista e filósofo francês Serge Latouche, ressalta que  a economia moderna é sustentada por três pilares: a obsolescência programada, o crédito e a publicidade. E alerta que esse tripé não é sustentável, embora tenhamos todos,  o direito aos bens de consumo e ao credito, é também nosso dever cuidar dos recursos naturais de forma que possamos deixar um planeta ambientalmente saudável para as gerações futuras.

Mas, é impossível esquecer que o lixo também é um problema social. Segundo dados da United Nations Environment Programme (Unep), órgão das Nações Unidas  (ONU) voltado para o meio ambiente, até 90% do lixo eletrônico do mundo são despejados no continente africano, principalmente em Gana,  sem obedecer a nenhum critério ou respeito pelo homem ou pela natureza. Os milhares de catadores locais se arriscam em busca dos equipamentos usados, muitos destes altamente tóxicos e estes são vendidos aos comerciantes locais, que os revendem para serem derretidos em lareiras ao ar livre, poluindo o ar e, muitas vezes, intoxicando todos os que lidam com isso. Mas, é um negócio lucrativo, e com custo ambiental zero para os países de origem.

No Brasil, em 2010 foi regulamentada a Lei Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12305/10), considerada uma das mais avançadas do mundo, determina no seu Art. 33, que a produção deste tipo de resíduo obrigatoriamente deva ser acompanhado da Logística Reversa[1], porém, pouco andou no âmbito da sua implantação.


[1] Logística Reversa – é a área da logística que trata, genericamente, do fluxo físico de produtos, embalagens ou outros materiais, desde o ponto de consumo até ao local de origem. (Wikipédia)

Segundo o relatório The Global E-Waste Monitor 2017 da ONU, o Brasil produz em média 1,5 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano, em torno de 7,5kg  por habitante, incluindo geladeiras, TVs, torradeiras, pilhas, telefones, calculadoras, câmeras digitais, fogões e etc. No mundo, foram gerados 44,7 milhões de toneladas, o equivalente a 4,5 mil Torres Eiffel de lixo eletrônico. E até 2021, a previsão é que esse número suba para 52,2 milhões de toneladas por ano.

Mais o que fazer neste cenário tão impactante?

Desde a Conferencia de Estocolmo em 1972, passando pela Assembleia  que criou o  conceito de desenvolvimento sustentável ou Relatório Brundtland[1] de 83, e os demais eventos marcantes que contaram com a presença dos mais importantes governantes mundiais,  como a  ECO-92, Protocolo de Quioto em 97, a Rio+20, em 2012 e o Acordo de Paris assinado em 2016, a ONU vem discutindo as mudanças climáticas e os impactos ambientais para que os países signatários criem politicas, leis e mecanismos que visam diminuir a emissão de gases e nossa “pegada” no planeta.

No entanto, na questão dos resíduos de equipamentos eletroeletrônicos (REEE), pouco se vê em termos de logística reversa, principalmente no Brasil. Se junta a isso a desinformação da população quanto ao descarte correto, a inexistência ou pouca divulgação dos pontos de coleta,  ausência de fiscalização dos órgãos competentes junto às industrias e revendedoras dos produtos eletroeletrônicos.

Por outro lado, as cooperativas de catadores de lixo poderiam ser de fato mais lucrativas, gerando renda para a população mais carente, se todo o sistema estivesse organizado.  Pois apesar de existirem componentes nocivos à saúde, grande parte do resíduo eletroeletrônico é composto de materiais com grande valor de mercado, como o cobre, alumínio e ouro, além do plástico que também é reciclável. Algumas empresas lucram com esse tipo de resíduo, mais segundo a Lei de resíduos sólidos, para ser sustentável tem também que gerar renda para as comunidades de catadores de lixo. O fato é que vivemos em um planeta finito, e essa questão do lixo deve ser levada muito a sério, pois corremos o risco não só de esgotar os recursos naturais, como também podemos ser soterrados pelas montanhas de lixo de todos os tipos que ainda estão por ai em aterros sanitários sem o menor controle. Como é o caso do Jardim Gramacho em Duque de Caxias/RJ que já foi considerado o maior lixão da América Latina e que foi desativado em 2012.  Porém, não recebeu qualquer tratamento do poder publico e ainda vivem por lá os mais de 1600 catadores, sem a menor infraestrutura, o que antes era fonte de sustento, agora é um risco de desastre ambiental, pois segundo uma moradora, está abrindo uma fenda em meio à montanha de lixo. Se a hipótese se confirmar, com risco de desabar para o lado dos casebres,  podendo atingir a comunidade inteira, se cair pro lado da Baia de Guanabara pode causar um tsunami à nossa porta.

O lixão de Gramacho ficou famoso após o documentário indicado ao Oscar do artista plástico Vik Muniz – Lixo Extraordinário, que mostrou a realidade dos catadores de lixo.

Talvez falte muito,  para que tenhamos uma real consciência ecológica que de fato reflita nas nossas escolhas na hora de comprar ou trocar os nossos equipamentos eletroeletrônicos ou qualquer bem de consumo. Mais se começarmos hoje, talvez possamos mudar a historia e de fato deixar um planeta mais viável, equitativo e suportável para as gerações futuras.

Neste sentido, podemos relembrar Immanuel Kant e sua Metafisica dos Costumes, se entendermos que tudo depende da BOA VONTADE  e que “sem ela não é possível conceber coisa alguma no mundo ou fora dele”.

E essa boa vontade deve começar pela correta gestão do “nosso próprio lixo”,  e que uma nova Consciência  esteja refletida em todas as nossas escolhas. Pense nisso!


[1] Desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento capaz de suprir as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. É o desenvolvimento que não esgota os recursos para o futuro. (WWF – Fundo Mundial para a Natureza).

Planeta Verde

Publicado em: 5 de junho de 2020 por

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